Balancei o corpo e peguei o saquinho de adoçante em cima da mesa. Li todas aquelas letras miudinhas antes de rasgar o papel e derramar o açúcar no café, mexendo sem força, quando ouvi ela dizer que Adoçantes causam câncer.
Minha vida é um câncer disse sorrindo, achando aquela minha frase muito boa, cheia de sentido simbólico e com uma margem enorme para reflexões. Mas pela cara dela achei isso sozinho e sozinho fiquei pensando que Putz, a vida é injusta com o sarcasmo.
Muito injusta.
E daí que pensando assim, mergulhei meus olhos dentro do café que esfriava e que agora, com todo aquele câncer em forma de adoçante granulado me fazia ter espasmos de dúvida. Aquele era meu primeiro dia e o relógio, que nunca havia saído de cima da geladeira, já marcava o tempo que se esgotava. Deixei o café com câncer, coloquei meus tênis surrados e saí, balançando os braços acompanhado de um Volto logo, a benção? fechando com força o portão que ficou balançando depois que tranquei.
Resolvi ir a pé. E fui. Olhando meus pés indo e voltando firmes e foi aí que pensei Quanto será que os pés podem agüentar andar? E me lembrei daqueles velocistas que correm como se o mundo fosse acabar, e tudo aquilo se devia aos pés, indo e voltando firmes, como os meus, ali.
Suspirei quando achei a casa e toquei a campainha. Uma cabeça assustada apareceu na janela dando um sorriso logo depois quando, aparentemente, lembrou de mim.
Entrei para logo ser inundado de perguntas do tipo Qual seu nome mesmo e Quantos anos você tem mesmo e Sua mãe é muito minha amiga e blá blá blá e no final eu só pensava Moça só estou aqui pelo dinheiro não quero ser simpático mas apenas sorri, pegando a coleira e dizendo Está tudo bem. Tenho jeito com cachorros. Mentira deslavada, mas tudo pelos trocados a custa de um passeio sem compromisso e uma ida no pet-shop.
Enrolei a coleira na mão e sorri mais uma vez, saindo sob os olhos preocupados da dona e Ih, esqueci de perguntar o nome do cachorro… ou cadela, ou fosse o que fosse, a partir dali iria chamá-lo de Barbados porque sempre Barbados havia me soado um bom nome para um cachorro. E todos sorriam quando eu passava com Barbados e Barbados parecia retribuir os sorrisos porque queria cheirar as pessoas e lambê-las, o que era horrível para mim que parecia muito mais ser guiado por ele do que o contrário.
Não satisfeito Barbados latia e mijava nos postes e eu ali, sem saber o que fazer, balançando a cabeça quando alguém passava, tentando dizer com isso que ele não era meu cachorro, enquanto ele babava minha mão, sujava minha calça nova, berrava e me arranhava desesperado quando neguei lhe dar uma parte do meu último chiclete.
Ca-chor-ro-dos-in-fer-nos.
Olhei o relógio e só havia passado 15 minutos, quis voltar e devolver Barbados, me desculpando para dona e dizendo Olha, menti. Não levo jeito com cachorros, mas agora era tarde, porque ela tinha me pagado com antecedência e o dinheiro rebolava no meu bolso. A única alternativa era deixá-lo logo no pet-shop e esperar à hora passar em algum lugar.
Arrastei Barbados com raiva ser dar crédito para seus uivos. Esperei numa pequena fila atrás de outros cachorros quietos nos braços de seus donos, enquanto Barbados devorava uma pilha de revistas e eu, sem sucesso, tentava recolocar seus restos no lugar de origem, sob o olhar reprovador da atendente do pet-shop.
Ele não é meu cachorro, resmunguei.
Na minha vez a mesma atendente me perguntou o que era para fazer em Barbados e eu disse Tudo, quanto mais tempo ele ficar aqui melhor e ela o olhou como quem olha um pedacinho de nada e colocou uma identificação nele, pegou a coleira e o arrastou para dentro, colocando ele numa jaulinha horrenda e muito pequena para seu tamanho e disse Daqui a duas horas ele estará pronto e pensei Quem nesses dias ainda fala “estará”? Mulher estranha.
E saí sentindo o olhar de Barbados nas minhas costas. Parei um pouquinho na calçada e ouvi um chorinho lá no fundo, me virei e vi que era ele quem chorava, olhinhos tristes e focinho contra a grade da jaula, estranhando o poodle feliz do seu lado esquerdo e o pincher meio morto do lado direito.
Me voltei para rua e pensei que aquela calça não era tão nova assim e que o arranhão nem tinha doído tanto e que, na verdade, renegar a Barbados aquele ventinho de fim de tarde e todos aqueles postes para serem mijados era um brutal egoísmo meu. E foi assim que voltei, peguei de volta Barbados e, parando na primeira sorveteria, dividi com ele um picolé de chiclete.
Esse post é especialmente dedicado para:
Sofia e Iago Bolher. ♥