Arquivo de fevereiro \29\UTC 2012
Tem essa história (de um ator decadente) com duas páginas que deram tão certo, mas que morreu nelas porque, porra, nem que soque minha cabeça mil vezes na parede, consigo visualizar a continuação.
Então que:
R.I.P
Dessa vez tinha, ao menos, um trailer: persiana automática, mesa dobrável, um frigobar cheio de destilados e ele sentado no sofá que se afundava com seu peso morto de ator de meia idade com a carreira em franco declínio na paciente espera da claquete. O chão tremia e as paredes eram em Chroma Key. O roteiro tinha duzentas páginas e seu personagem aparecia mudo na cena quatro. Ele é o “um cliente se assusta”.
O Marcos tinha dito: Ah, mas eles vão pagar bem, cara. Eles vão pagar pra ter teu nome nos créditos. Vão pagar pelo teu sotaque. Vão te dar um trailer, como nos velhos tempos. E pensou em como Nos-Velhos-Tempos soava mofado, aceitando sem muito esforço porque queria mesmo era sair daquela casa morta, cheia de lodo nas piscinas, banheiros sem descarga, pôsteres com fungos, paredes com infiltrações e folhas podres na varanda. Fugir do advogado e do ônus das cifras que ele não podia pagar pelo divórcio, mesmo que fizesse dez filmes daquele, dez vezes dois. Fugir de morrer naquele casarão e só acharem seu corpo depois de um mês. Então lá foi ele, dois dias de viagem, sendo dez horas com a bunda já quadrada no assento de uma mini van que cruzava a oitenta quilômetros por hora uma estrada de barro que socava poeira até debaixo das cuecas.
Pra quê uma locação tão longe, porra?
E o motorista da mini van, com um tique nervoso em um dos olhos, de esgueira pelo retrovisor:
Sem querer incomodar, mas eu vi o doutor em Chance de Vingança — o Gosto do Sangue e Chance de Vingança — Quem Rir por Último Rir Melhor. A cena do palhaço é muito boa.
É. A cena do palhaço — ele repetiu, apesar de não se lembrar de nenhuma cena de palhaço, o que não era tão estranho, porque era só dá uma noite para ele, uma noite e um travesseiro que ele não ia se lembrar nem dessa viagem, nem desse motorista, nem dos oitenta por hora da mini van, porque não era engraçado lembrar desse presente contínuo de solavancos e murros em ponta de faca que levava nos últimos anos.
Então ele entornava dois ou três analgésicos em um gole longo de uísque e afundava a cabeça nos ombros.
[...]
Mrs. Dalloway
Publicado fevereiro 24, 2012 r Uncategorized Deixar um ComentárioTags:glamour, hell, literatura, mensagem subliminar, mundo cão, quéquitemele, terceiro reich
Parem as prensas.
Sempre que leio alguma resenha/sinopse sobre Mrs. Dalloway é assim [mais ou menos]: um dia na vida de Mrs. Dalloway que está preparando uma festa. E a história até que é isso, concordo, mas é tão de passagem. Veja: de preparativo de festa nada, a não ser as flores do primeiro parágrafo e um vestido sendo consertado.
[Bem, tem a ansiedade, mas... oras!]
Além do mais, Clarissa Dalloway é a pedra angular do romance porque [a mon avis], no final todos irão, de uma maneira ou de outra, passar pela sua festa [vida] do quê por qualquer outro motivo [ou seja, não necessariamente porque é a protagonista].
Tenho pra mim que essa simplificação em contar como é a história se deve ao enredo labiríntico do livro. O enredo é um fluxo de consciência da autora que entra e sai de discursos intimistas de mais de uma dezena de personagens [sem exagero].
Quando pensamos que estamos engatando na história de Clarissa, por exemplo, seu vestido, suas lembranças, seu passado, seu Peter Walsh que vem da Índia, ôpa, passa um carro na rua e embarcamos nos pensamentos de Sir William – que até então, você nunca tinha visto mais gordo - e que belo dia para esticar as pernas, pensa William que vê o carro passar, que belo dia para fazer uma visita a Septimos que olha a janela pensando na guerra e em Evans e…
Tendel? É isso aí o tempo inteiro.
Além do quê é apenas um dia, um dia em várias vidas, porque o dia muda para cada um, mesmo que o calendário marque a mesma data. E tudo vira sensação, uma dezena de sensações e epifanias espalhadas por aquela Londres, então que – para alguns – o romance pode entrar na categoria de não contar nenhuma história porque não se tem um conflito claro.
Tudo isso pra eu dizer que: sim é lindo, um clássico, extremamente bem escrito, mas também dificil de ser lido e que merece um tempo, uma áurea específica.
Nada de dias cheios, nada de preocupações na cabeça. Ou seja: pegue Mrs. Dalloway quando você não se incomodar de ler cinco páginas e no final perceber que estava pensando em outra coisa, longe do livro, longe da história porque o personagem na folha também estava distante daquela realidade inventada.
É contagioso, vai vendo.
Em tempo:
Mrs. Dalloway possui algumas adaptações cinematográficas. Por exemplo:
Mrs. Dalloway – 1997
As Horas – [que é baseado em um livro de Michael Cunninghan que se baseia no livro e na vida de Virginia Woolf, ufa.] – 2003
“Roendo o dia de Junho”
Publicado fevereiro 21, 2012 r Uncategorized Deixar um ComentárioTags:Apocalipse, hell, literatura, mensagem subliminar, mundo cão
Cortando e repartindo, dividindo e subdividindo, os relógios de Harley Street iam roendo o dia de junho, aconselhavam a submissão, exaltavam a autoridade, e louvavam em coro as supremas vantagens do senso da medida, até que o monte do tempo de tal forma diminuiu, que um relógio comercial, na fachada de uma loja de Oxford Street, anunciou, cordial e fraternamente, como se fosse um prazer para a Rigley & Lowndes dar a informação grátis, que já era uma e meia da tarde.
Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; [Saravaiva de Bolso, 2011]
Female Trouble.
Publicado fevereiro 15, 2012 r Uncategorized 4 ComentáriosTags:aimeudeuso, Apocalipse, bophes magia, bota essa porra pra funcionar direito, hell, mensagem subliminar, mundo cão
É para as Mulheres que meus olhos de historiadora se voltam desde que me lembro dentro desse métier [bruxas, feministas, anarquistas, esquecidas].
Os trabalhos de pesquisa já começaram para que a monografia da pós possa ter inicio ainda em março desse ano e, então, me encho de papéis e livros e dúvidas e fico doida.
É padecer no paraíso.
E o universo conspira.
Ontem mesmo li que o discurso sobre a mulher foi uma coisa e a prática outra, mas sejamos razoáveis. Ou seja, nem sempre encasteladas [sempre silenciadas]. Aí que a arroba linda Vitor Joanni me manda um link lindo [tudo lindo por aqui hoje] e eu, bem, eu tenho um troço.
Segue uma parte [em inglês, desculpa] e, no final de tudo, link para o post original com mais mugshots lá no Dangerous Mind.
*
Tyne & Wear Archives & Museums historic Flickr sets are amazing, eye-opening and some times a little heartbreaking. I chose to feature female prisoners from the Newcastle City Gaol and House of Correction dated 1871-1873.
I’ll be honest, some of these women I wouldn’t want to tango with in a dark alley, but most of these faces look so sad and utterly defeated by life. Their faces are aged prematurely by poverty, sickness and simply put, being dealt a shitty hand on the day they were born.

Jane Farrell: 12-years-old. “Jane Farrell stole 2 boots and was sentenced to do 10 hard days labour.”

Mary Patterson: 25-years-old. “Mary Patterson was sentenced to 6 weeks in 1873 for theft of poultry.”

Isabella Dodds: 17-years-old. “Isabella Dodds was sentenced to 4 months at Newcastle Gaol for stealing a gold watch."

Ellen Woodman: 11-years-old. “At the young age of 11, Ellen was ordered to do 7 days hard labour after being convicted of stealing iron when caught with Mary Catherine Docherty, Rosanna Watson and Mary Hinnigan.”
Em tempo:
Because i’m crazy, baby…
Publicado fevereiro 14, 2012 r Uncategorized 1 ComentárioTags:aimeudeuso, deslizando no brilho, fenomenologia, glamour, Lana Del Rey, lolita, Nabokov, translucifera, video games
[... I need you to come here and save me]
Nem sei como descobri Lana Del Rey, mas sei que faz um tempo e foi antes de tudo estourar. Achei ela fabricada, achei que pesava um pouco na figura hollywoodiana de diva decadente, no ufanismo de mostrar que ser americana é legal [jeans, bandeira, cabelo peekaboo], mas não conseguia parar de ouvir Video Games e Blue Jeans. Em consequencia baixei o primeiro álbum dela [ainda como Elizabeth Grant] e só consegui ouvir algumas músicas e tudo foi embora, digo a vontade de ouvi-la, em menos de uma semana, apesar de ficar na expectativa pelo tão aguardado Born to Die.

Então sai o clipe da música título que achei [acho] um tédio que beira um cochilo em frente ao monitor. Fora que, sei lá porque, o hype me incomoda e, no meu jogo, sempre faz gol contra. Mas apesar de tudo, fui firme [porque bem fazia tempo que algo não me agradava tanto quanto Video Games] e escutei o CD novo e que coisa mais linda, minha gente.
Lana Del Rey mais acerta que erra nas músicas e cada acerto é uma punhalada no coração [que sangra].
Logo de cara ela me ganha mostrando que é fã de Nabokov cantado Lolita e Off to the Races, sendo que nessa última [para mim a melhor até agora] ela transcreve algumas frases daquele velho safado, me trazendo uma sensação de perda e conforto que é tão incomum sentir.
Apesar das críticas negativas de muitos e do amor meio cego que ela despertou em tantos outros [e em tão pouco tempo], sugiro que você só escute sua música e que seja testemunha do nascimento de uma boa artista e de um grande álbum.
Oportunidades como essa são poucas, amigos, acreditem.
Tintin.
Publicado fevereiro 13, 2012 r Uncategorized Deixar um ComentárioTags:bophes escandalo, bophes magia, cinema, filmes, hell, quéquitemele

Foi a mesma sensação.
Eu costumava assistir Tintin no começo da noite quando passava na Tv Cultura e era tudo tão misterioso e cheio de reviravoltas e aventura e eu achava tudo aquilo tão mágico [o topete, Milu, Capitão Haddock] que ontem, mesmo em 3D, mesmo tão distante no tempo e eu já com vinte seis anos na cara, bem, foi a mesma sensação.
Eu nunca acompanhei as HQs de Tintin e bem já sabia das polêmicas envolvendo as produções de Hergé – preconceitos embutidos nas falas dos personagens, bebidas e armas etc. Resquícios de um começo de século vinte meio perturbado [quando não?]. Veja, o primeiro Tintin [Tintin no país dos soviets] saiu, no já distante, 1930.
Mas que atire a primeira Constituição Brasileira quem não assistia empolgadão Pica-Pau explodindo a cara das pessoas com dinamite, Patolino fumando e Tom e Jerry pegando em espingardas.
Infância tumultuada, folks.
Essas coisas devem afetar [afetam] nossa cabeça de alguma maneira, mas quando se é criança o imediatamente assimilado é o divertimento. Tintin me divertia sobremaneira [eu queria ser Tintin] e não me decepcionou. Foi lindo. Saí rindo pra ninguém do cinema.
Valeu.
Trailer:
Complexo de Yoda.
Publicado fevereiro 6, 2012 r Uncategorized 4 ComentáriosTags:Apocalipse, bophes magia, bota essa porra pra funcionar direito, enrolação, hell, literatura, papo cabeça, translucifera

Bem rola essa minha vontade de participar de uma coletânea de contos aí. Nem é muito minha cara [e o que seria minha cara?], mas como acredito que não é você quem escolhe a história, mas a história é que te escolhe veio a ideia, veio os personagens, veio o conflito e comecei a escrever.
Fui acusada de sofrer Complexo de Yoda.
Eu sei que é uma coletânea comercial e que o público dela é o mesmo que lê [e não vai além] as Crônicas de Gelo e Fogo, e que é fã número um de Harry Potter e acha demais a pegada criacionista do Senhor dos Anéis [nada contra nenhum dos títulos e seus respectivos autores, admiro até, essa coisa de saber contar uma história que, por si só, basta [basta?]. São ótimos contadores de histórias, portanto, sem guéri-guéris].
E, ôpa, sei sim que nem sempre deixo as coisas explícitas no que me proponho contar e é esse o ponto: não quero deixar nada explícito. Não quero facilitar. Quero me fazer entender pelas entrelinhas, pelo não dito. Mas nem sempre [quase sempre] [sempre] isso não é bem entendido e a história, na leitura de alguns não ganha corpo, não ganha ação. Ou seja, eu complico o meio de campo. Enquanto todos ao meu redor falam que a força esteja com você, eu viro mestre jedi e tasco um: Que a força com você esteja e todo mundo faz cara de hã [sempre tendo a achar, nesse momento, o leitor preguiçoso no esforço de ler/compreender].
Então que em determinada passagem fui obrigada [pelo bem da ação] em dizer. Contar, abertamente, o que se passava com o personagem principal e, amigos, doeu.
Doeu mudar a história. Doeu mudar uma regra básica que me impus [por quê?]. Doeu perceber que não ficou tão mal como pensei que ficaria. Pelo contrário, até.
Espero que seja passageiro.
Des Étoiles Noires.
Publicado fevereiro 1, 2012 r Uncategorized 2 ComentáriosTags:Apocalipse, bophes escandalo, contos, hell, literatura, mensagem subliminar
Em dias de confissão se sente um frisson que todos compartilham em silêncio. Eu sabia que podia ajudar de alguma forma, sabe, era a água que te deixava meio deprimido. Que te deixava meio confuso. Abaixo do que seria normal. Te criava umas dúvidas na cabeça, uma fraqueza em raciocinar. Sem ela sairíamos estourando os miolos uns dos outros. Johnny disse que a água era uma mistura de inibidores, anti-ansiolíticos mais algum alcalóide, ou qualquer merda dessas, o que queria dizer que era uma máquina de fazer zumbis, então que a gente bebia o menos possível e tentava não enlouquecer. Dois goles por dia, talvez um copo cheio quando sentia minhas mãos tremerem, quando as paredes ondulavam um pouco. As paredes são metalizadas. O peito dói na altura do diafragma, imprensando as costelas.





