Essa bad que é a vida.

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A página do livro marcada em grifos neon. O zum-zum-zum lá fora: crianças gritando, o sibilar da bicicleta de alguém, a casa bonita do condomínio quinze andares abaixo de seus pés. O despertador na beirada da cama, uma noite quase bem dormida. Água fria por cima dos ombros, pasta de dente com sabor de menta, café quentinho, meia hora antes de estar atrasada, borrifa Miss Dior perto da nuca, Não esquecer de nada! Revira a bolsa com a mão como uma cega. O chaveiro da chave da porta num barulho de mil guizos e gira com mão pesada pra acordar os vizinhos de andar. Tem medo de elevadores, finge não estar em um quando está em um. Bom Dia pro porteiro, Bom Dia pro cara da manutenção, Bom Dia pra moça da rua. BomDiaBomDiaDiaBom, assim espera. Cocô de cachorro no meio da calçada, o sol de sete se travestindo de sol das doze, cheiro de protetor solar. O sinal fechado, a faixa de pedestre ocupada. Tem medo de um perigo sem rosto e corre dali. Propagandas em carros de som, fachadas com propagandas descoloridas pelo sol. Sol, sol, sol. Camus fez seu personagem enlouquecer de sol. Como mesmo? Aujourd’hui, maman est morte etc, etc. Ônibus lotado, a senhorinha de riso torto que sobe. Consegue abrir aleatoriamente em uma das páginas do livro, começa o poema, mas não termina o poema. Tem uma absence, daquelas que Freud observou em Anna O . Sabe, ainda bem!, o que é realidade e sonho. Escolhe o sonho: céu azul que brilha. Uma música toca em algum lugar. Seus pés doem dentro das sapatilhas, mal consegue imaginar os pés dos cisnes de Tchaikovsky. Corre dali, tem medo de algo sem rosto, e depois: mais oito horas, mais uns dois ônibus, uma briga de pedestres, servidores em greve fechando a rua, uma notícia ruim no portal de notícias-(ruins), uma ambulância costurando o trânsito, sol. Alguém batendo foto, selfie, meio triste isso de selfie, não ter uma mão amiga pra segurar a câmera, câmera de celular, fake, sol, nunca mais ameno esse sol, uma parada para dois goles de água, dois beijos na bochecha da mãe, do cãozinho, do papai, a bolsa moldando uma grande escoliose que vai lhe deixar manca aos 60 anos, mensagens que chegam vibrando, metendo medo, corações, carinhas felizes, alguém arrancou os sisos, os quatro de uma vez! Manda foto! Cara inchada. Flash.

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1 Response to “Essa bad que é a vida.”


  1. 1 bia madruga dezembro 24, 2016 às 3:03 pm

    Que bom, que massa. 🙂


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