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A arte de morrer.

Ofelia (1852). John Everett Millais. Galeria Tates.

Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.

Ofélia sentou-se e cantou. Cantou perto do rio e as roupas, encharcadas, deram o alívio que tanto queria sua alma cansada. As roupas, pesadas, a levaram. Afogou-se.

[Afogou-se, disseste?

Afogou-se.]

Sua morte prematura (como parece ser a maioria), sua morte de amor (a falta dele), ela (realmente louca) largada solitária na lama. Nas cores de Millais parece que ela brinca na água, infantilmente, boia para longe. Mas seu rosto lívido de quem viu um mistério (a mão das rosas no rigor mortis) diz que ela não vai voltar.

Millais acerta em deixar bonita a morte (a morte não é bonita).

Afogou-se. Enforcou-se. Se jogou. Deu um tiro na cabeça. Morreu dormindo e você sente essa coisa que não tem nome. Ela entra pelo ouvido, congela seus pensamentos e se encaixa na garganta. Ela incomoda: por mais que você pigarreie, revire os olhos para longe ou chore.

Eu toquei a morte, depositei nela três dos cinco dedos. Ela é uma presença sobrenatural em uma ausência que se decompõe. Ela te invade. Ela assusta. Ela fala com você. Depois pus a me besliscar, apertei com força a mão, tentei aquecê-la, o sopro dela (ela, a morte) parecia subir pelo meu braço, subindo, subindo. A mão ficou inerte por umas boas duas horas.

A morte torna-se o lugar em que o homem melhor toma consciência de si mesmo.


Olá.

Meu nome é Danielle Sousa. Sou a chata da turminha.

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