Posts Tagged 'jamestown'

Jamestown.

Virgínia, 1609.

Ela morreu ontem, apenas fechou os olhos e morreu. Com ela, mais da metade já se foi. Jamestown está silenciosa.

Pela manhã não há mais o barulho característico de outros tempos e as pessoas andam lentas pelas ruas lamacentas. Fizemos uma votação e um grupo, decidido, saiu para procurar qualquer coisa entre as árvores ou que rasteje, qualquer coisa que sirva porque qualquer coisa serve. Qualquer coisa fora dos muros de Jamestown (porque aqui não há mais nada), mas os índios jogaram suas cabeças escalpeladas como aviso. Ninguém nos disse que ia ser assim.

Ela morreu e nem sabemos o nome dela direito. Chegou em um dos navios do continente, um dos poucos que sobraram da viagem, sozinha, porque a família pereceu no meio do caminho. Ela disse:

– Jane.

O Travis matou um dos sabugos da família e o cozinhou durante a noite. Já não temos mais cavalos vivos, por isso cachorros e ratazanas também servem. Jogamos o resto nas valas perto dos muros da cidade. Ambler disse que Deus abandonou Jamestown. Ambler cozinhou seus sapatos de couro e os comeu.

Eu disse:

– Deus nunca esteve aqui.

Porque é no que acredito.

Olhamos todos os dias por cima dos muros de Jamestown e nada acontece. Esperamos notícias, esperemos comida, esperamos que alguém nos tire daqui. Bebemos água do poço, o poço está verde, a água tem gosto de morte. Jamestown é uma prisão. Jamestown é o inferno. Deus não está no inferno.

Jane morreu ontem e nós não comemos há mais de cinco dias. Nada. Quando se sente esse tipo de fome, não se dorme e nem se pensa direito. As pessoas começam a desconfiar uma das outras. Batem as portas e se trancam em casa. Se sente uma dor de cabeça que não passa, uma vertigem que não cessa.

Eu pensei ter ouvido minha mãe falar comigo hoje de manhã (algo como: suba até aqui!), mas ela morreu há mais de dez anos. Eu disse alto:

– Deus não está em Jamestown.

Pegamos um machado e algumas facas. Vamos fazer em plena luz do dia, não há mais segredos por aqui. Não sei se chegaremos a nos arrepender. Jane está bem melhor que nós, agora.

Então fechamos a Bíblia e fizemos um pacto de que, depois de comê-la, nunca mais falaremos de Jane de novo. Nunca mais pensaremos nela de novo. Depois de comê-la, vamos abandonar Jamestown.


Olá.

Meu nome é Danielle Sousa. Sou a chata da turminha.

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 19 outros seguidores

Instagram

Houve um erro ao recuperar imagens do Instagram. Uma tentativa será refeita em poucos minutos.