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A arte de morrer.

Ofelia (1852). John Everett Millais. Galeria Tates.

Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.

Ofélia sentou-se e cantou. Cantou perto do rio e as roupas, encharcadas, deram o alívio que tanto queria sua alma cansada. As roupas, pesadas, a levaram. Afogou-se.

[Afogou-se, disseste?

Afogou-se.]

Sua morte prematura (como parece ser a maioria), sua morte de amor (a falta dele), ela (realmente louca) largada solitária na lama. Nas cores de Millais parece que ela brinca na água, infantilmente, boia para longe. Mas seu rosto lívido de quem viu um mistério (a mão das rosas no rigor mortis) diz que ela não vai voltar.

Millais acerta em deixar bonita a morte (a morte não é bonita).

Afogou-se. Enforcou-se. Se jogou. Deu um tiro na cabeça. Morreu dormindo e você sente essa coisa que não tem nome. Ela entra pelo ouvido, congela seus pensamentos e se encaixa na garganta. Ela incomoda: por mais que você pigarreie, revire os olhos para longe ou chore.

Eu toquei a morte, depositei nela três dos cinco dedos. Ela é uma presença sobrenatural em uma ausência que se decompõe. Ela te invade. Ela assusta. Ela fala com você. Depois pus a me besliscar, apertei com força a mão, tentei aquecê-la, o sopro dela (ela, a morte) parecia subir pelo meu braço, subindo, subindo. A mão ficou inerte por umas boas duas horas.

A morte torna-se o lugar em que o homem melhor toma consciência de si mesmo.

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Jamestown.

Virgínia, 1609.

Ela morreu ontem, apenas fechou os olhos e morreu. Com ela, mais da metade já se foi. Jamestown está silenciosa.

Pela manhã não há mais o barulho característico de outros tempos e as pessoas andam lentas pelas ruas lamacentas. Fizemos uma votação e um grupo, decidido, saiu para procurar qualquer coisa entre as árvores ou que rasteje, qualquer coisa que sirva porque qualquer coisa serve. Qualquer coisa fora dos muros de Jamestown (porque aqui não há mais nada), mas os índios jogaram suas cabeças escalpeladas como aviso. Ninguém nos disse que ia ser assim.

Ela morreu e nem sabemos o nome dela direito. Chegou em um dos navios do continente, um dos poucos que sobraram da viagem, sozinha, porque a família pereceu no meio do caminho. Ela disse:

– Jane.

O Travis matou um dos sabugos da família e o cozinhou durante a noite. Já não temos mais cavalos vivos, por isso cachorros e ratazanas também servem. Jogamos o resto nas valas perto dos muros da cidade. Ambler disse que Deus abandonou Jamestown. Ambler cozinhou seus sapatos de couro e os comeu.

Eu disse:

– Deus nunca esteve aqui.

Porque é no que acredito.

Olhamos todos os dias por cima dos muros de Jamestown e nada acontece. Esperamos notícias, esperemos comida, esperamos que alguém nos tire daqui. Bebemos água do poço, o poço está verde, a água tem gosto de morte. Jamestown é uma prisão. Jamestown é o inferno. Deus não está no inferno.

Jane morreu ontem e nós não comemos há mais de cinco dias. Nada. Quando se sente esse tipo de fome, não se dorme e nem se pensa direito. As pessoas começam a desconfiar uma das outras. Batem as portas e se trancam em casa. Se sente uma dor de cabeça que não passa, uma vertigem que não cessa.

Eu pensei ter ouvido minha mãe falar comigo hoje de manhã (algo como: suba até aqui!), mas ela morreu há mais de dez anos. Eu disse alto:

– Deus não está em Jamestown.

Pegamos um machado e algumas facas. Vamos fazer em plena luz do dia, não há mais segredos por aqui. Não sei se chegaremos a nos arrepender. Jane está bem melhor que nós, agora.

Então fechamos a Bíblia e fizemos um pacto de que, depois de comê-la, nunca mais falaremos de Jane de novo. Nunca mais pensaremos nela de novo. Depois de comê-la, vamos abandonar Jamestown.


Olá.

Meu nome é Danielle Sousa. Sou a chata da turminha.

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